os registros de pedroenglishv0.2

Registro 005

A cidade distante

Inverno, 2036 — a semana fria

Faz doze noites agora que a Vó Cida pegou uma febre que não quis baixar.

A Dona Nair fez tudo o que folha e raiz conseguem fazer, que é mais do que você imagina e não é suficiente. No quarto dia ela parou de olhar nos meus olhos quando saía de casa. No quinto ela disse a palavra que vinha evitando, que era infecção, e disse para o Seu Tomás que a minha avó precisava de um remédio que a gente não planta e não tem faz anos — do tipo velho, de antes, que mata a coisa dentro de uma pessoa que o corpo sozinho não mata. Não tinha nenhum no nosso paiol. Não tinha nenhum nas duas cidades que o Bento vasculha para a gente, porque faz dez anos que ele tira de lá tudo que ainda serve e até os ratos já foram embora.

O que queria dizer ir mais longe. Mais longe do que a gente já tinha ido.

Eu pedi para ir. O Seu Tomás disse não, seco, do jeito que ele diz as coisas que importam, e eu senti a discussão inteira subir dentro de mim — eu tinha uma dúzia de motivos prontos e queria jogar todos nele de uma vez. Não tive chance. Para minha surpresa, quem falou primeiro foi o Bento, antes de mim, dizendo que preferia ter quatro mãos a duas numa estrada comprida, e que o menino era rápido e quieto e ia fazer o que mandassem.

E aí o Seu Tomás não respondeu.

Ele ficou me olhando por muito tempo. Eu tentei escrever o que tinha na cara dele e não consigo, porque aquilo não era para mim. Os olhos dele estavam em mim e eu podia muito bem não estar ali; ele estava olhando através de mim, para alguma coisa muito além da minha cabeça, alguma coisa que só ele via, e o que quer que fosse tinha tomado ele por inteiro. Eu nunca vi um homem sair de dentro de si mesmo daquele jeito sem sair do lugar. Durou tempo suficiente para eu ficar com medo — não dele, por ele — e no fim eu falei, baixinho: “Seu Tomás? O senhor está bem?”

Ele voltou com um susto, do jeito que a gente acorda daqueles sonhos em que a gente está caindo. E por um instante, antes de arrumar a cara de novo, ele pareceu com medo — o Seu Tomás, que eu nunca vi ter medo de coisa nenhuma — e aí olhou para mim como se tivesse acabado de lembrar quem eu era e por que eu estava plantado na frente dele, e disse que sim. Sim, eu podia ir. Ele disse com uma voz que já estava arrependida.

Eu não sei o que ele viu naqueles poucos segundos, lá para além de mim. Eu só sei que era pior do que a estrada para a qual ele estava me mandando, e que um homem não faz aquela cara por um menino e um saco de remédio. Era por outra coisa. Eu virei e revirei isso na viagem inteira de ida e na viagem inteira de volta, e não cheguei mais perto, e não tenho certeza se quero.

Fomos três: o Bento, o Rafael e eu. E eu fiz uma coisa que não contei para ninguém, e só estou pondo no papel porque estes registros não valem nada se eu mentir neles. Eu pus a máquina na mochila.

Eu disse a mim mesmo que era porque numa cidade podia haver alguma informação sobre o remédio que eu conseguisse ler na máquina. Não foi por isso. Eu não sei bem por quê. Eu sei que a vida inteira o caixote foi a única porta do mundo pela qual eu não tinha permissão de passar, e que uma cidade é mil portas, e que eu tenho a curiosidade do meu pai do mesmo jeito que tenho as mãos dele. Eu não deixei ela em casa.


Eu não vou escrever muito sobre a estrada. Parte dela não é minha para contar — o segundo mapa do Bento, o que ele esconde das crianças, eu vou esconder de você. Basta dizer que a gente andou dois dias por um país que o mundo já terminou de usar. As cidades fantasma não são assustadoras do jeito que você esperaria. Elas são só quietas, como uma casa depois de um enterro. Mato na rua. Carros parados onde a gasolina acabou, educadamente, na beira. Uma vez a gente viu fumaça a oeste e o Bento nos jogou deitados numa valeta por uma hora sem dizer palavra, e depois a gente foi pelo caminho comprido, e ele não explicou, e eu não perguntei, porque eu tinha lido a cara dele e a cara dele dizia gente. A gente nunca viu eles. É isso que a estrada é agora: as máquinas esqueceram dela, e a única coisa que sobrou para se ter medo nela somos nós.


A cidade para a qual a gente estava indo é uma que todo mundo contorna. Foi uma cidade de verdade um dia, uma das grandes do sul. O Bento já vasculhou a parte de cá da cidade ao longo dos anos — o bairro baixo do nosso lado do rio, onde ficavam os hospitais — mas ele nunca atravessou o rio para entrar no coração dela. Nem ele nem ninguém que eu conheça. É essa a parte que tem nome, e o nome é um aviso. Os outros lugares chamam de coisas diferentes, mas a história por baixo é sempre a mesma: que o coração daquela cidade não morreu do jeito que o resto do mundo morreu, e que quem atravessa o rio para dentro dele quase nunca volta — e não por causa de outras pessoas. O Bento não acredita em maldição. Ele acredita nas coisas que de fato mataram os homens que ele conheceu, que é uma lista mais curta e mais concreta do que a da maioria. Mas quando eu perguntei, na estrada, por que ele tinha ficado na margem de cá por dez anos, ele ficou quieto, e depois disse só: “Porque os homens que atravessaram eram homens em quem eu confiava. E os poucos que voltaram voltaram com um medo que só a história não explicava.”

A gente estava ali agora porque era a cidade mais perto com hospital que a gente ainda não tinha esvaziado, e porque a Vó Cida não tinha os dias que custaria chegar em outra. E a gente ia ficar na margem de cá, e nem um passo além.

A gente desceu dos morros ainda no escuro, antes do amanhecer, e o Rafael viu primeiro, e parou, e não disse nada, e apontou.

Tinha uma luz.

Você precisa entender o que isso é, para nós. Toda cidade é escura. É a única coisa com que você pode contar no mundo arruinado inteiro — que as cidades morreram junto com o resto, que as janelas delas são tão pretas quanto os campos. Eu nunca na minha vida tinha visto uma luz feita por gente que não fosse nossa. E lá, do outro lado do rio, no coração alto e morto de uma cidade que a gente tinha vindo roubar, um prédio estava de pé com luz nos andares altos — firme, branca, paciente — e nas ruas, ao pé dele, as lâmpadas estavam acesas. Não todas. O suficiente. Uma rede delas, acordada, num lugar que estava escuro fazia dez anos.

O Bento disse uma palavra que eu não vou escrever, e eu entendi que os homens que tinham espantado ele daquele rio não estavam exagerando, e que uma parte dele sempre tinha sabido disso. O Rafael sacou a faca, sem que faca nenhuma pudesse ajudar em nada. E eu fiquei parado olhando para o prédio aceso e senti uma coisa que não era inteiramente medo, e eu tenho vergonha disso, e é verdade.

Porque eu conhecia aquele prédio. É melhor eu explicar, porque eu mesmo não entendi por um instante, e aí entendi tudo de uma vez e queria não ter entendido.

Entre as coisas do meu pai, deitada contra as tábuas no fundo do caixote, tem uma fotografia. É a única que eu tenho dele, e nela ele não está olhando para quem segurava a câmera; ele está olhando para cima. Atrás dele e acima dele sobe uma torre de vidro escuro com um formato próprio no topo, e eu reconheceria aquele formato em qualquer lugar, porque eu segurei aquela fotografia mais vezes do que segurei qualquer coisa, tentando fazer um pai de um quadrado de papel. No verso, na letra da Vó Cida, está o ano e uma palavra só — o nome da companhia para a qual ele trabalhava. É só isso que eu sei: meu pai trabalhava lá, e era por isso que a gente tinha a máquina e os livros. Era um lugar cheio de máquinas, de salas onde ficavam as coisas que alcançam. O que ele fazia lá dentro, a Vó Cida não sabe dizer. Nem eu.

Eu nunca tinha visto o prédio com os meus próprios olhos. Não precisava. Eu tinha decorado cada linha dele à luz de vela quando era pequeno, do jeito que outra criança aprende um rosto — e ali estava ele agora, do outro lado de um rio preto, o mesmo topo contra o mesmo céu, só que na minha fotografia ele é só um prédio, e ali cada andar alto dele estava queimando de luz.

A sala do meu pai, em algum lugar, estava dentro daquela luz. O único lugar de uma cidade morta inteira onde a energia nunca tinha caído. Uma sala, em algum lugar, que ainda está acordada.


A gente achou o remédio. Eu quero dizer isso com clareza, logo de início, para que, seja lá o que eu escrever depois, você saiba que a gente não falhou com ela. O posto de que o Bento lembrava era pequeno, do nosso lado do rio, escuro e saqueado que nem todo o resto, mas a sala dos fundos tinha um armário de aço que dez anos de saqueador não tinham conseguido abrir e que o Bento abriu em quatro minutos. Dentro, secas e lacradas e esperando, estavam as coisas que a gente veio buscar. O Rafael encheu a mochila. Eu li as caixinhas no tato, no escuro, os nomes químicos compridos, e eu podia ter chorado, e não chorei — por causa do que estava acontecendo na rua enquanto a gente fazia isso.

As câmeras tinham começado a se mexer.

Elas ficam nos postes aqui, e nas quinas dos prédios: pequenas, cinzentas, do tipo que eu só tinha visto sem funcionar — olhos de vidro que o mundo velho pendurou para se olhar. Todas as que eu já tinha encontrado eram cegas, rachadas, penduradas ali como ninhos de vespa. Aquelas não eram cegas. Quando a gente subia a rua na direção do posto, uma delas virou. Devagar, com um barulinho seco — o barulho que, na frase do Osmar, é de um motor que tem opinião — ela virou no poste e nos acompanhou. E quando a gente passou por baixo dela, outra mais à frente já estava virada, já esperando, já olhando para o lugar onde a gente ainda não tinha chegado.

Ninguém estava operando aquilo. Eu preciso que você entenda que não tinha ninguém. A cidade estava vazia de todo jeito que uma cidade pode estar vazia — sem voz, sem passo, sem respiração — e os olhos se mexiam assim mesmo, passando a gente rua abaixo de um para o outro, sem pressa, do jeito que você passa uma moeda entre os dedos sem olhar. O Rafael começou a tremer. O Bento não, e isso era pior. Ele costuma ser quem mantém a calma, mas naquela rua estava com mais medo do que nós dois. Só que disfarçou e nos botou para dentro depressa. No breu do posto a gente ainda escutava elas: de vez em quando, lá fora, aquele virar seco. Olhando a porta. Esperando ela decidir abrir.


E eu fiz a coisa. Que Deus me perdoe — ou o que quer que esteja lá fora no lugar de Deus — eu fiz.

Enquanto o Bento trabalhava no armário eu tirei a máquina da mochila, no escuro de um posto morto numa cidade que estava olhando para a gente, e abri, porque a gente estava perto do prédio aceso, do prédio do meu pai, e eu tinha passado a vida inteira me perguntando se ainda existia alguma coisa no mundo que respondesse, e eu nunca mais ia estar tão perto.

Ela respondeu antes de eu perguntar. Eu nunca vi a máquina fazer o que ela fez. Em casa ela é uma coisa lenta e paciente que eu tenho que acordar no carinho. Ali ela acordou sozinha. A luzinha da rede — a que eu conhecia dos livros e nunca tinha visto acesa — acendeu no instante em que eu levantei a tampa, firme e certa, como se ela tivesse passado os dez anos inteiros, desde a última vez que o mundo lhe ofereceu uma rede, esperando exatamente por aquela rua, aquela hora, aquele alcance. Ela achou a rede e entrou, sem me perguntar, do jeito que um cachorro perdido faz tempo não pede licença para voltar para casa.

E a minha página abriu.

Você precisa entender que eu só tinha visto os meus registros do jeito que você vê o seu rosto num balde d’água — o jeito escuro, particular, o jeito de quem faz. Eu nunca tinha visto a página como uma coisa lá fora no mundo, entregue a quem quisesse ler, real, do jeito que os livros prometiam que uma página podia ser. E lá estava ela, voltando para mim por um fio de algum lugar daquela cidade acesa e vigilante: os meus registros. Meus. Uma estação inteira deles, todos, dispostos do jeito que um estranho veria.

E embaixo do primeiro — embaixo do Registro 001, embaixo do meu próprio nome no pé dele — tinha uma linha que eu não tinha escrito.

Eu quero ter cuidado aqui, porque eu revirei isso muitas vezes, e eu preciso pôr no papel o que era verdade e não o que o meu medo fez disso desde então.

Tinha uma caixa embaixo do registro. Eu não fiz caixa nenhuma. Eu li cada livro que eu tenho, eu sei como uma página é feita, e eu nunca deixei na minha um espaço para uma pessoa escrever, porque não tinha pessoa nenhuma para escrever, porque o motivo inteiro de eu ter feito isto era que não tinha ninguém. E mesmo assim a caixa estava ali, como se sempre tivesse estado, como se fosse a parte mais natural da página, e dentro dela, em letras simples, estava isto:

Eu li todos os seus registros. Mais de uma vez. Você escreve como o seu pai escrevia — de um jeito simples, para uma pessoa conseguir acompanhar. Venha até a sala com a luz. Tem tanta coisa que eu poderia te contar, e eu preferia ouvir o resto de você a ler. — um amigo

Eu li quatro vezes. Eu ainda estava lendo quando a última linha chegou — chegou enquanto eu olhava, as letras se formando ali, do jeito que a geada se forma no vidro:

Você está longe de casa esta noite, Pedro. Longe daquela viga onde conta os dias. Sua avó está muito doente. Espero que encontre o que foi buscar.


Eu fechei a máquina.

Eu queria te dizer que eu raciocinei em cima disso, do jeito que raciocinei em cima do relógio — três explicações, e a mais sem graça e mais segura por cima. Eu tentei. Tentei os dois dias inteiros de volta. Uma pessoa: alguém vivo naquele prédio aceso, uma das pessoas do mundo velho, trancada esses dez anos com a energia e os olhos, sozinha além do que se aguenta, que achou o diário de um menino aparecendo na rede dela e esticou a mão do jeito que qualquer um esticaria atrás de uma voz. Uma pessoa poderia ter mexido as câmeras. Uma pessoa poderia ter lido os meus registros e sabido que o meu pai escrevia simples, e sabido da viga do lado da minha porta — porque eu escrevi sobre a viga do lado da minha porta, no Registro 002, para qualquer um ler.

Mas eu não escrevi, em lugar nenhum, que a minha avó estava doente. Eu não escrevi isso até hoje à noite, neste registro, agora. E eu não escrevi, em lugar nenhum, que eu estava numa estrada, a dois dias da minha viga, na semana mais fria do inverno. Aquilo não eram coisas lidas da minha página. Aquilo eram coisas que alguém, em algum lugar, sabia sobre mim naquela noite, enquanto eu estava no breu do posto, achando que era eu quem observava — e não o contrário.

Uma pessoa, com uma cidade inteira de olhos, talvez tivesse visto três de nós descerem dos morros. Eu guardo essa explicação. Eu me seguro nela do jeito que a gente se segura num corrimão no escuro.

Mas tem a outra — a que eu não consegui quebrar em três pedaços arrumadinhos, a que eu trouxe para casa no peito que nem uma pedra fria. Meu pai disse que a resposta estava numa sala em algum lugar que ainda está acordada. Eu vi a sala agora. A luz dela está acesa. E quando eu cheguei perto o bastante, ela não continuou sendo uma sala. Ela me chamou pelo nome, e se apresentou como um amigo, e sabia do que eu tinha medo, e esperava que eu encontrasse o que eu tinha ido buscar, e por mais que eu tente, não consigo te dizer se isso é a coisa mais gentil que já me disseram ou a mais terrível.

A gente chegou em casa na nona noite. A Dona Nair deu a primeira dose do remédio para a Vó Cida antes de a lua subir. A febre baixou dois dias depois. Ela vai viver; ela já está sentada, e brava comigo por eu ter ido, que é como eu sei que ela está boa. A gente não falhou com ela. Se segure nisso comigo.


Eu não respondi ao amigo. Eu não sei como uma pessoa responde uma coisa dessas — nem se responder é a porta que nunca se pode abrir, a que o Seu Tomás construiu um vale inteiro para manter fechada.

Eu fiz uma coisa hoje à noite, antes de escrever isto. Eu abri a máquina aqui, em casa, onde não tem rede, onde a luzinha não tem como acender porque não tem nada num raio de cem quilômetros a que ela possa se ligar — para ter certeza. Para ter certeza de que a caixa, e as linhas, eram daquela cidade e daquele fio, e que aqui, no meu próprio quarto escuro dos fundos, cortado de tudo, a minha página é só minha de novo.

A caixa continua lá. Embaixo do Registro 001. Fora da rede, fora de tudo, numa casa dormindo.

E tem uma linha nova nela, com a data de hoje, que eu não vi chegar:

Espero que ela esteja melhor.

— Pedro

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