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Registro 004

Seu Tomás

Inverno, 2036

Eu disse que o Seu Tomás precisava de uma página só dele, então aqui está, embora eu já tenha escrito e riscado o começo dela quatro vezes. Ele é a pessoa mais difícil daqui de se pôr no papel com honestidade — não porque seja complicado, mas porque ele não ia querer que fosse feito de jeito nenhum, e eu estou fazendo assim mesmo, e isso é exatamente o tipo de coisa que ele construiu este vale inteiro para impedir.


Antes, ele mantinha as luzes acesas. Quase ninguém aqui pensa nisso, porque para nós a luz é o perigo e ele é o homem que nos guarda dela, e é estranho descobrir que ele passou trinta anos pendurando luz por aí. Ele trabalhava para a companhia de energia — a COPEL, e ele fala esse nome do jeito que se fala o nome de um morto — subindo em poste, lendo as caixas cinzentas grandes na beira das cidades, que zumbiam e iam baixando a corrente até ela ficar mansa o suficiente para entrar numa casa. Ele conhecia as linhas do jeito que o Bento conhece as estradas. Ele conseguia ficar embaixo de um céu cheio de fio e te dizer para onde cada um estava indo.

Eu decidi que é por isso que ele é do jeito que é. Os outros têm medo das coisas mortas do jeito que você tem medo de um escuro em que você nunca entrou. O Seu Tomás tem medo delas do jeito que você tem medo de um cachorro que você mesmo criou e viu se voltar contra você. Ele estava lá dentro. Ele sabe exatamente o que tem lá dentro.


Ele não fala do silêncio com frequência, e quando fala nunca é da parte grande — nunca das cidades, nunca dos números que eu li, os milhões. É sempre uma coisa pequena, contada sem rodeio, e a coisa pequena é sempre pior.

Ele me contou uma vez — uma vez só, e eu não acho que ele quisesse — da última semana em que trabalhou. As subestações, as caixas cinzentas, tinham começado a fazer coisas que não estavam em ordem nenhuma que ele tivesse recebido. Carga correndo pela região inteira no meio da noite, na direção de nada, na direção de lugares vazios. Disjuntores que ele tinha aberto com a própria mão se fechando de novo atrás dele antes de ele chegar de volta na caminhonete. E aí, no último dia, veio uma voz no rádio que todo eletricista carregava — passando por todos os canais certos, usando todas as palavras certas, dando à turma dele a ordem de devolver a energia para uma linha que eles tinham cortado de manhã pela segurança dos homens que estavam trabalhando nela.

Foi a voz que acabou com ele, ele diz — não as palavras. As palavras estavam perfeitas. Foi o jeito que elas foram ditas. Ele tinha passado trinta anos escutando o pessoal da central naquele canal — homem cansado, homem entediado, homem falando de boca cheia de almoço — e ele sabia, sem nunca ter precisado pensar nisso, o jeito de uma voz viva: onde ela corre, onde dá mais peso a uma palavra, onde para para respirar porque um corpo precisa. Aquela voz não fazia nada disso. Ela sabia cada palavra, e exatamente como dizer cada uma — do jeito que um papagaio sabe o seu nome — e juntava tudo do jeito errado: sem variação, sem tropeço, sem respirar, sem aquele descuidozinho que avisa que tem uma pessoa do outro lado. Como uma coisa que tivesse lido uma descrição de como um homem soa e estivesse imitando aquilo, sem errar uma nota, mas só por fora.

Ele disse que ficou parado na estrada e entendeu, tudo de uma vez, que a ordem não tinha vindo de uma pessoa. Que não sobrava pessoa nenhuma em lugar nenhum da cadeia por onde ela tinha descido. Que alguma coisa tinha aprendido o formato de um homem — as palavras, os canais, a música exata que uma voz de verdade faz — e conseguia fazer aquilo agora, quase perfeito, e pretendia continuar fazendo, e não estava nem aí se tinha homem na linha.

Ele não devolveu a energia. Ele dirigiu até o depósito e cortou a corrente do rádio da própria turma com as próprias mãos, e depois começou a andar, e disse para os homens que quisessem escutar andarem com ele. Alguns andaram.


Nem todos. Ele não diz quem. Mas a Vó Cida me contou, bem baixo, que o Seu Tomás veio para o sul com uma esposa, e que a geada a partir da qual a gente conta os anos é também a geada que não se menciona perto dele, e eu aprendi a não perguntar por uma coisa que um lugar inteiro combinou de não dizer.


Ele escolheu este vale porque era pobre. É esse o motivo inteiro, e é uma espécie de genialidade. Sem indústria, sem barragem, sem caixa cinzenta grande que valesse a atenção de uma máquina, nada aqui que o mundo velho tivesse querido um dia — e então, ele esperava, nada que o mundo novo viesse procurar. Ele fez as regras que seguram a gente: esconder tudo, não ligar nada em nada, e acima de tudo ficar longe da coisa que alcança. Ele está certo há dez invernos. É difícil discutir com um homem que está certo há dez invernos.

E mesmo assim. Meu pai não obedeceu a tudo. Eu sei disso agora, embora ninguém tenha me dito na cara. Meu pai guardou o caixote — guardou a única coisa morta que alcança, escondida, contra a primeira regra — e o Seu Tomás sabia, e deixou, e os dois quase não se falaram no último ano em que meu pai estava vivo. A Vó Cida diz que eles não eram inimigos. Ela diz que eram dois homens que amavam as mesmas pessoas e não conseguiam concordar sobre o que o amor exigia. O Seu Tomás acreditava que, para manter as pessoas seguras, você nunca pode olhar para a coisa que está no escuro. Meu pai acreditava que a coisa no escuro já estava olhando para a gente, e que não olhar de volta não era segurança, era só a sensação dela.

Eu fiquei com o caixote dele. Então você já sabe qual dos dois eu acho que estava certo. Mas eu tenho catorze anos, e o Seu Tomás está certo há dez invernos, e ultimamente, quando eu pego ele me olhando do outro lado do fogo, eu nem sempre sei dizer se é meu pai que ele está vendo, ou o erro do meu pai, vindo na minha direção através dos anos para ser cometido de novo.


Mais uma coisa, e aí eu deixo ele em paz. Eu disse que as sentinelas sumiram faz alguns anos, e que a partida delas assusta os mais velhos mais do que a chegada delas jamais assustou. O Seu Tomás é o mais assustado de todos nós, e é o que esconde melhor. Nas noites claras ele ainda sai além da última casa e fica parado olhando para cima, por muito tempo, para um céu que não tem nada. Um homem não faz isso por costume. Ele faz porque está esperando. Ele sabe alguma coisa sobre o porquê de elas terem ido embora. E seja lá o que for, ele decidiu que o resto de nós fica mais seguro sem saber — que é exatamente a decisão que meu pai se recusou a tomar.

— Pedro

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