os registros de pedroenglishv0.2

Registro 003

Quem nós somos

Começo do inverno, 2036

Seu Tomás diz que um lugar tem que conseguir dizer o que é numa tacada só, para que, se um estranho perguntar, você já tenha a resposta antes de sentir medo. A nossa é esta: somos vinte e cinco, plantamos o que comemos, e não vale a pena nos roubar. A última parte é mentira, e a gente conta de propósito. Eu já volto nisso.

Mas eu quero anotar o resto direito — os vinte e cinco — porque a Vó Cida conta a gente em voz alta todo inverno, na primeira geada forte, tocando em cada nome como quem passa a mão numa conta de terço, e só agora eu entendi por quê. Um número é fácil de perder. Se você está lendo isto, você tem que saber quem nós fomos, caso a contagem um dia pare.


Somos vinte e cinco. Oito de nós ainda estão crescendo. Cinco são pequenos — a Lia, que tem seis anos e morre de medo das cabras; o Tuca, que tem nove e não tem medo de nada, o que é pior; e mais três miudinhos que são das duas famílias das casas de baixo. Três de nós estão quase grandes: o Rafael, que tem dezesseis e já faz serviço de homem; a Bruna, que tem quinze e cuida das galinhas e de uma faca; e eu, embora ninguém tenha me dito se me contam entre os grandes ou os pequenos, e eu já parei de perguntar.

Os outros dezessete são grandes. Nove homens, oito mulheres, e dois deles já estão velhos o bastante para que o resto de nós carregue o peso por eles: o Seu Tomás, que precisa de uma página só dele e vai ganhar, e a minha avó, Cida, que teceu o cobertor que escondeu a máquina antes de me esconder.


Todo mundo aqui serve para alguma coisa. Ninguém fez disso uma regra. É só o que um lugar vira quando vocês são vinte e cinco e o mundo lá fora já decidiu que vocês não deviam existir.

O Seu Osmar serve para as máquinas que a gente tem permissão de ter. Ele cuida do gerador que ele modificou para aceitar etanol e dos painéis. Sabe a hora exata do dia exato em que o sol é mais fraco do jeito que outros homens sabem o aniversário dos filhos. Ele não gosta do caixote no meu quarto dos fundos. Ele gosta de motor, que só faz aquilo que você construiu para fazer. Um computador, ele diz, é um motor que tem opinião.

A Dona Nair serve para manter a gente vivo quando o corpo se vira contra a gente. Ela sabe que folha baixa uma febre e que raiz segura uma tripa que está sangrando, e ela é melhor do que qualquer livro que eu tenho — mas ela não é mágica, e está ficando sem as coisas que não dá para plantar, os remédios velhos, os de antes. Eu vou ter que escrever sobre isso, e logo, e não estou com vontade nenhuma.

O Bento serve para as estradas. É ele que sai — para as cidades fantasma, atrás de metal e de pano e das coisas que se guardam em lata — e é ele que volta, que é a metade mais difícil do serviço. Ele carrega na cabeça um mapa de todo lugar onde já esteve e de todo lugar de onde alguém não voltou, e o segundo mapa ele não mostra para as crianças.

O resto de nós planta. É nisso que se passa a maior parte da vida aqui, e eu não vou deixar isso soar pequeno, porque é o contrário de pequeno; é o motivo inteiro de o número ainda ser vinte e cinco. A gente planta mandioca e milho e feijão e abóbora e a cana do Osmar, e a gente planta tudo isso do jeito que a gente faz tudo — escondido. As nossas roças não parecem roças. Elas estão espalhadas debaixo das árvores e dobradas pelas costas dos morros em formas que não querem dizer nada lá de cima, para que a terra, vista do céu, pareça só terra. Os mais velhos levaram anos para aprender a plantar assim, para alimentar gente fingindo não alimentar ninguém. Eu acho que é a coisa mais inteligente que a gente faz, e ninguém de fora vai ver nunca, que é exatamente o objetivo.

A gente tem cabras, e galinhas, e dois porcos, e uma vaca velha que quase não dá nada e que ninguém come porque ela tem nome. Tem um poço. Tem uma escola, que é a Vó Cida e três crianças e os poucos livros do meu pai que ela julgou seguros. E tem a vigia — sempre tem alguém acordado, sempre de olho na estrada e, mais por costume do que por medo agora, no céu.


Eu venho tentando pensar em como te contar com o que este lugar se parece, e cheguei à conclusão de que a resposta honesta é que ele não se parece com nada. É esse o ofício inteiro. Uma parte disso eu já te contei, no primeiro registro, depressa, do jeito que a gente aponta uma coisa de longe. Vou pôr tudo de novo aqui, devagar, num lugar só, porque é o motivo de a contagem ainda não ter parado.

Não tem uma linha reta no vale. Nada é quadrado; nenhum caminho segue reto; duas pessoas não vão até o poço exatamente pela mesma linha, porque uma linha que se caminha duas vezes vira marca, e marca é uma frase numa língua que a gente prefere que ninguém leia. As nossas casas são cavadas para dentro do barranco — uma parede aberta, o resto terra — e cobertas de terra e plantadas por cima, de modo que uma casa é uma corcova verde e baixa numa encosta, e este vale inteiro, visto de cima, é um morro com mato que mal se lembra da geometria. A terra segura o calor delas no inverno e, muito mais importante, impede que elas fiquem quentes do jeito que importa. Uma casa feita de barro não brilha à noite.

A gente come na primeira luz e na última luz. Eu não sabia por quê até perguntar, e a resposta não é costume e não é fome. É que duas vezes por dia o chão e um corpo chegam na mesma temperatura, e por mais ou menos uma hora o calor de uma pessoa não se destaca do calor de um campo. A vida inteira, o meu café da manhã foi na hora exata em que uma pessoa deixa de ser visível, e ninguém nunca achou que valia mencionar, porque para todo mundo aqui isso é simplesmente a hora em que se come.

O alambique é cavado meio morro adentro. O gerador do Osmar respira por um cano comprido enterrado embaixo do terreiro, para que o que sobe lá na outra ponta seja frio, e ralo, e não queira dizer nada para ninguém. Fogo só debaixo das árvores. Painéis deitados debaixo do mato, levantados só quando o céu está vazio. E do lado de fora de cada porta do vale, num prego, uma sombra.

E não tem cachorro.

Eu li sobre cachorro a vida inteira e nunca vi um. Não tem um cachorro neste vale, e eu tenho quase certeza de que não tem um cachorro num raio de cem quilômetros. Eu perguntei para o Seu Tomás uma vez, quando eu ainda era pequeno o suficiente para perguntar coisas para ele. Ele disse: “Cachorro não aprende a sombra.” Não disse mais nada. Faz seis anos que eu penso nessa resposta.


Não somos os únicos. Eu preciso dizer isso claramente, porque quando só se tem vinte e cinco pessoas é fácil escrever como se fossem as últimas vinte e cinco, e não somos. Tem outros lugares como o nosso, a dias de caminhada, mais do que você imaginaria. Com alguns a gente troca, com cuidado, nas beiradas, do jeito que — dizem os livros — se dá comida para um cachorro que não se conhece. Eu nunca dei comida para um cachorro. Você já sabe por quê. De outros a gente nem chega perto. O Bento diz que as máquinas nunca foram a coisa de que mais se devia ter medo lá fora. Gente era. Gente é. Ele diz isso do jeito que diz tudo, seco e sem deixar dúvida, e depois olha para a porta.

E essa é a verdade por trás da mentira com que eu comecei — a de que não vale a pena nos roubar. Vale, sim. A gente tem paiol cheio e criança alimentada e um alambique que faz uma coisa pela qual um homem sem piedade mataria. Então a gente se faz de nada, do céu e da estrada, e se fazer de nada é um serviço também, e todo mundo faz, até as crianças, até a Lia, que tem seis anos e ainda não sabe que a brincadeira de ficar bem quietinha quando passa um estranho não é brincadeira.

Vinte e cinco. Eu contei a gente do jeito que a Vó Cida me ensinou, tocando em cada nome.

Eu espero, seja você quem for, que quando você achar isto o número esteja maior. Tenho medo de que esteja menor. De um jeito ou de outro — agora você sabe quem esteve aqui.

— Pedro

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