os registros de pedroenglishv0.2

Registro 002

A data

Outono, 2036 — alguns dias depois

Uma coisa pequena hoje. Provavelmente não é nada. Mas eu disse a mim mesmo que ia anotar tudo, e uma regra que você só cumpre quando é fácil não é regra.

Quando você faz uma página, a máquina põe uma marquinha nela — o dia e a hora em que ela foi acessada pela última vez. Os livros chamam isso de timestamp, uma marca de tempo. Ela deveria vir de um relógio, e o relógio deveria vir da web, de todas as máquinas do mundo concordando ao mesmo tempo sobre que horas são, em todo lugar, do jeito que o sino da igreja dizia a mesma hora para um vale inteiro.

A minha máquina não acessa a web faz dez anos. Não existe web para ela acessar. Então o relógio dentro dela devia estar morto, ou errado, ou parado no último dia em que meu pai usou. É o que os livros dizem que acontece: sem ter a quem perguntar, o relógio perde o compasso, ou para.

O meu não está errado.

Eu não percebi de primeira. Estava relendo o registro que fiz alguns dias atrás, o primeiro, e olhei a marquinha que a máquina tinha posto lá embaixo, e a data era a data de hoje. Não o dia em que eu escrevi. Hoje. Como se a página tivesse sido acessada depois. Como se ela tivesse conferido.

Eu conto os dias sozinho, na viga ao lado da porta, desde a última lua nova. Eu não estou errado sobre que dia é hoje. E a máquina também não está errada. A gente concorda. Eu não sei como a gente concorda.

Tem duas coisas estranhas aí dentro, eu sei. O relógio está certo, e a página foi acessada. Eu decidi ter medo da primeira, porque relógio é uma coisa que os livros explicam e página acessada por ninguém não é, e eu tenho catorze anos, e estou me permitindo o medo menor.

Eu tenho três explicações para o relógio e não gosto de nenhuma.

Uma: tem uma pilha pequena dentro, dessas que os livros mencionam, que mantém o relógio vivo sozinho por anos, e eu simplesmente acertei ele sem querer quando consegui fazer a máquina funcionar, e esqueci. É nessa que eu decidi acreditar.

Duas: eu acertei e não esqueci, e eu sou o tipo de pessoa que mente para si mesmo por escrito, o que faria destes registros uma coisa sem valor nenhum, então nessa eu não vou acreditar.

Três não é bem uma explicação. Três é o motivo de eu não ter conseguido dormir ontem à noite. Três é que, se um relógio está certo, alguma coisa está dizendo as horas para ele, e não sobrou nada neste vale que possa dizer.


Já que estou confessando marcas, tem mais uma. No pé de cada página tem uma linha que diz que a página foi sincronizada há alguns minutos — acertada, os livros querem dizer; posta de acordo com algum outro lugar. Eu copiei o formato desse rodapé de um dos livros da web antes de saber para que a palavra servia, e ainda não achei o lugar da página que faria a linha sumir. Decidi que ela é que nem o desenho num prato: uma coisa que ficou de quem fez, e quem fez não está aqui. É a única coisa na minha página que não é cinza. Isso eu também não escolhi.


Eu desliguei a máquina e fiquei um tempo sentado no escuro escutando a casa, do jeito que eu faço. As cabras. O vento nas araucárias. Minha avó respirando no quarto do lado. Nada que não devesse estar ali.

Provavelmente não é nada.

Eu vou continuar contando os dias na viga. E vou continuar olhando a marquinha lá embaixo da página.

Se ela algum dia estiver na minha frente — se a máquina algum dia achar que é um dia que eu ainda não vivi — eu vou anotar isso também.

— Pedro

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